Charmander
Arnaldo praticamente não
saia de casa havia três meses. Desde que Lívia terminou o namoro de cinco anos,
na véspera de embarcar para um mestrado em Londres, seus dias perderam o
sentido. Não foi se despedir dela no aeroporto, mas acompanhava seus passos pelas
redes sociais. Nutria a esperança de que reatassem quando ela voltasse. Curtia
e comentava cada postagem, na esperança de manter vivo o contato e acesa a
esperança, até que ela decidiu bloqueá-lo. Ela até que gostava do assédio, mas
o irlandês Richard (colega de classe e atual date) ficava muito incomodado com aquele fucking stalker.
Cara inteligente, mas introspectivo,
Arnaldo passou pela faculdade sem fazer novos amigos. Tinha os antigos, do
ensino médio. Na sua turma de colégio era o único “certinho de exatas” em meio
aos “malucos de humanas”. Seria um forte candidato a sofrer bullyng, mas foi salvo pelas amizades
sinceras e pelas colas nas provas de física.
Formado, conseguiu emprego numa
empresa indiana, desenvolvendo projetos do computador de casa e respondendo
diretamente à matriz, em Bombaim. Tinha a vantagem de que os chefes estavam
longe e a desvantagem de lidar com o fuso e o confuso inglês dos indianos, cujo
sotaque parecia ainda mais travado quando picava a conexão via Skype.
O home office, os horários malucos e o pé na bunda formaram a
combinação perfeita pra se enfurnar no apartamento. Passou a viver ligado a
aparelhos. Computador. Smartphone. SmartTV. Internet
banking pra pagar as contas. iFood pra pedir comida. Diminuiu a frequência que
a lavanderia pegava as roupas em casa, pois passava a maior parte do tempo com
o mesmo pijama. Delivery, aliás, já
era seu sobrenome, até pra comprar desodorante, papel higiênico e outros itens
para os quais ainda não há aplicativo pra resolver o problema.
Os amigos já tinham
desistido de tirá-lo do seu ninho. Bares e baladas não o atraiam. Mesmo quando
estava com Lívia saíam pouco (na verdade, ele saia pouco, e ela era vista por
aí com mais frequência). Talvez outro relacionamento pudesse ajudar. Já que ele
gostava tanto de aplicativos, foi convencido a se cadastrar no Tinder, no WeChat,
no Happn... nada o empolgou. Teve um mais empolgado que sugeriu entrar no
Manhunt e no Grindr. Arnaldo preferiu nem tentar!
Netflix virou seu companheiro
fiel. Seus voos mais altos, ele alcançava pelo Angry Birds. Quando perguntavam
se ele não queria uma vida nova, ele agradecia e pedia pra enviar no Candy
Crush. Vivia cada vez mais à vontade no mundo virtual.
Não se achava triste, muito
menos depressivo. Sentia falta de Lívia, mas aos poucos percebeu que era apenas
um vazio, mas não era saudade. Para os amigos tinha Facebook (pra mandar
parabéns nos aniversários em que invariavelmente não comparecia) e Whatsapp (embora
mantivesse quase todos grupos de conversa no silencioso). Arnaldo sentia-se autossuficiente
a ponto de não querer uma nova namorada, nem mesmo uma paquera sem compromisso.
Arnaldo tinha o mundo em suas mãos, ao alcance de seu wi-fi.
Até que algo aconteceu
quando instalou o tão falado aplicaivo Pokemon Go. Nunca foi fã desses
bichinhos, não assistia aos desenhos e só conhecia o Pikachu por meio de meia
dúzia de piadinhas de duplo sentido. Mesmo assim, sentiu algo estranho quando
viu, pela tela do celular, um Charmander pulando na sua cama. Era um estranho bichinho alaranjado, de dentes afiados, olhos arregalados
e fogo no rabo. Gastou algumas pokebolas para capturá-lo. Nesse momento, Arnaldo
teve uma sensação de conquista que há muito não sentia, e aquilo entrou na sua
corrente sanguínea como um vírus que a moça do Avast não detectou.
Logo procurava mais alvos na
tela do telefone. Descobriu haver um pokestop
a dois quarteirões de casa, e uma academia de pokemons numa praça a cinco minutos
de distância. Era uma noite quente, sem nuvens. Cancelou a pizza que pedira um
pouco antes, trocou de roupa e foi à caça. Caçou mais três monstrinhos na rua,
descobriu como conseguir mais itens e, de quebra, descobriu monumentos na
cidade para os quais nunca tinha prestado atenção.
Pela lente da realidade
aumentada, os pequenos demônios foram guias de praças, estátuas, grafites e um
café recém-inaugurado. Ao final das baterias (das pernas e do telefone)
resolveu sentar no lugar. Chamou o garçom, pediu uma porção de fritas com
queijo e bacon, e uma tulipa de chope. Sentado na calçada viu passar viu passar
Marcela, uma antiga amiga “de humanas” de quem não tinha notícias há anos (pelo
menos desde o fim o Orkut, última rede social que ela entrou).
Reencontro. Troca de olhares.
Troca de sorrisos. Casos. Outro chope. Mais batatas. Mais casos. A saideira. O
convite. A conta. A gorjeta. A noite em claro.
Arnaldo acabara de entrar em
uma nova fase.

Comentários